No “Novo Mundo de Dados”, quem controla as informações?

Por Ravi Gama, CEO da 2FIND e filiado do LIDE FUTURO

Hoje em dia, é praticamente impossível viver offline, pois recorremos à internet e ao nosso smartphone para quase tudo. O que não sabemos – ou não lembramos – é que todas as nossas navegações virtuais são acompanhadas por milhares de empresas, que aproveitam a oportunidade para coletar nossos dados pessoais. Fazer compras em e-commerce, conversar com os amigos e familiares por mensagens instantâneas, interagir com outras pessoas nas redes sociais, jogar on-line, acessar portais de notícias, fazer pesquisas em sites de busca. Você sabia que cada um desses cliques pode ser rastreado por grandes corporações?

Ao acessar páginas e utilizar aplicativos, nós costumamos concordar com políticas de privacidade sem uma leitura prévia e, assim, damos autorização para a coleta dos nossos próprios dados, que vão desde nome, cidade e idade até endereço de IP, informações sobre renda, hábitos de consumo e quaisquer outras informações que nos identifiquem. Esses dados permitem as empresas entenderem os perfis dos usuários a partir de algoritmos e são muito úteis para direcionar melhor os anúncios, melhorar campanhas publicitárias, monitorar hábitos de consumo, realizar estudos estatísticos, entre outras inúmeras vantagens.

Como um dos principais exemplos, temos as eleições norte-americanas de 2016, quando a empresa Cambridge Analytica se envolveu em um imenso escândalo após manipular dados de mais de 50 milhões de usuários do Facebook para a campanha eleitoral de Donald Trump, que, posteriormente, foi eleito presidente dos Estados Unidos. A polêmica rendeu até um filme chamado “Privacidade Hackeada”, disponível na plataforma da Netflix.

Muito se fala sobre os dados serem o novo petróleo e a nova economia. E, realmente, não estão longe disso. Os dados estão se tornando cada vez mais valiosos e são verdadeiras preciosidades para quem os detêm, já que proporcionam informações ricas e raras capazes de direcionar importantes decisões. A grande questão que envolve o assunto é em relação ao controle dessas informações. Todo país é regido por um governante, seja ele presidente, monarca ou imperador. Disso, não temos dúvidas. Mas são eles quem realmente controlam os países?

Há quem diga que tal controle está nas mãos da mídia. Bom, pode até ser, mas a essência é inquestionavelmente formada por dados. Afinal, a influência do comportamento do consumidor é feita a partir de dados, bem como o que consumimos e o que pensamos. Existe uma falsa sensação de que temos líderes gerenciando países quando, na verdade, quem direciona um país, quem muda uma cultura e transforma um comportamento humano, definitivamente são os dados.

Sabendo disso, podemos então nos perguntar: quem são os “presidentes” dos dados?

Essa lista é longa e abrange as maiores empresas do mundo, a começar pelo Google, uma das principais empresas que armazena o maior número de dados de internautas. A ferramenta de pesquisa acompanha todas as buscas que realizamos, os links que acessamos e, a partir desse rastreamento, conseguem identificar nossos potenciais interesses. O AliBaba também é outro protagonista nesse cenário, assim como a Microsoft, dona de absolutamente todos os nossos dados colhidos por meio dos nossos computadores que utilizam o seu software.

O Twitter é outra plataforma que merece destaque. Apesar de não ser tão usado no Brasil como nos Estados Unidos, a rede social coleta dados essenciais a partir de todos os nossos tweets e, principalmente, a partir das contas que nós seguimos. Não à toa, aqui no Brasil, o Twitter serve muito bem como um termômetro político, já que a rede é praticamente uma boca de urna, em que é possível termos uma prévia dos resultados das eleições com os dados coletados. Isso faz do Twitter uma relevante arma para uma campanha política, uma vez que os candidatos, guiados por boas estratégias, podem usufruir das informações colhidas por lá.

Outra rede social que tem sido alvo de polêmicas em relação a esse assunto é o Tiktok, o aplicativo chinês que vem crescendo assustadoramente e que está fomentando a “Guerra Fria” entre a China e os EUA. Recentemente, o governo norte-americano declarou que pretende banir o aplicativo do país acusando a rede social justamente de roubar dados de milhões de usuários. As maiores suspeitas são de que o Tiktok esteja transferindo essas informações para o governo chinês e que a empresa dona do aplicativo, ByteDance, esteja guardando os conteúdos de seus usuários sem as devidas autorizações. Diante disso, os EUA veem o Tiktok como uma grande ameaça à segurança dos americanos e seguem investigando o aplicativo.

Seguindo a lista de grandes empresas detentoras de dados, o Facebook não poderia ficar de fora. As recentes brincadeiras do aplicativo FaceApp que viralizaram na internet, geraram muita discussão. Basicamente, a ferramenta utiliza inteligência artificial para transformar rostos nas fotos. Ou seja, bastava os usuários fazerem o upload de uma selfie para descobrirem como ficariam daqui 50 anos ou então como ficariam se fossem do gênero oposto. Em pouco tempo, o aplicativo virou uma verdadeira febre na internet. No entanto, o que pouco se comentou foi o fato de o Facebook usar as fotos para coletar dados históricos de genética.

E se engana quem pensa que apenas os aplicativos e sites coletam dados. Atualmente, temos um exemplo de um aparelho que está entre os maiores desejos de muitos jovens: o Echo Dot da Amazon, uma assistente pessoal – chamada Alexa – que controla dispositivos inteligentes de casa, faz ligações, conversa, chama Uber, pede iFood, entre outros diversos comandos. A partir do momento em que compramos uma Alexa e a deixamos em casa, ela escuta e capta absolutamente todas as informações do ambiente. Nesse sentido, podemos dizer que a Alexa é uma das maiores coletoras de dados do mundo, já que ela está presente dentro da casa das pessoas durante 24 horas por dia. Uma vez que colocamos esse aparelho super inteligente em casa, estamos automaticamente autorizando-a a roubar os nossos dados.

Com essas informações armazenadas pela Alexa, a Amazon passa a ter um maior entendimento dos nossos perfis de consumo, tarefas do nosso dia a dia, rotina e hábitos e, dessa forma, consegue produzir propagandas personalizadas para os seus clientes. É exatamente por isso que a Amazon tem evidenciado tanto esse produto e até mesmo forçado, de certa forma, a sua compra. Se pensarmos racionalmente, é impossível que uma tecnologia desse nível varie entre o valor de apenas R$ 299 a R$ 350. Evidentemente, o preço está bem abaixo do que realmente ele custa. Portanto, neste momento, o foco da Amazon não é lucrar com a venda dos Echo Dot, mas sim inserir o aparelho na maior quantidade de casas possível e, consequentemente, captar bilhões de dados pelo mundo todo.

É assustador pensar em tantas coisas que são imperceptíveis para nós no dia a dia, que, às vezes, passam despercebidos. Mas a verdade é que estamos diante de um controle nocivo de dados, que exige a nossa atenção e cuidado. Precisamos nos alertar e acompanhar o mundo virtual que nos rege para buscar respostas para as nossas perguntas. Estamos falando de um mundo de dados, controlados por essas grandes empresas, mas como esses dados são realmente usados? Para o que, afinal, são usados? Quem está no comando de todas essas informações?

Se, por um lado, temos poderosas empresas se beneficiando com essa constante coleta de dados, por outro, notamos uma forte e crescente preocupação com a segurança das pessoas, o que, inclusive, resultou na intensa discussão sobre a entrada da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) no Brasil, que já deveria estar em vigor no país, porém a sua entrada foi adiada. A lei tem como objetivo basicamente regulamentar o tratamento de dados pessoais de clientes e usuários por parte de empresas públicas e privadas e tem sido vista como uma importante aliada à proteção da privacidade das pessoas.

É indiscutível que a LGPD realmente possui um papel relevante na nossa sociedade atual, pois demonstra uma tentativa do governo de garantir a segurança dos cidadãos. Mas precisamos entender o que, de fato, a lei vai mudar. Quais serão as mudanças efetivas com a aprovação da LGPD no Brasil? Vale lembrar que, mesmo que aprovada, a lei irá apenas regular a situação. E pouco adiantará regular se os usuários continuarão baixando aplicativos, acessando ferramentas e aceitando todos os termos de políticas de privacidade.

Parece uma tarefa muito inverossímil proteger as pessoas de todos os riscos e perigos em uma era completamente digital. Seria necessário ter controle sobre todas as ações dos internautas e, com tantas tecnologias avançadas que temos hoje, nem assim ainda teríamos a certeza de que estaríamos todos blindados contra o Mundo de Dados.

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