LIDE FUTURO Entrevista: Anna Valle, COO da Quattro

“Enxergo que a transformação digital da Logística é uma grande mina de ouro” – Anna Valle

Anna Valle, COO da Quattro, startup de tecnologia para logística e supply chain, filiada ao LIDE FUTURO, já passou por muitos desafios e perrengues em sua vida profissional. Como engenheira de produção, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, sempre foi muito inquieta.

Desde o primeiro semestre da faculdade, ela fez estágios em grandes empresas e participava ativamente de diversos programas estudantis. Um grande desafio em sua carreira acadêmica foi idealizar e fundar o GLean (Grupo de Estudos em Lean), que hoje é uma referência nacional, além de participar da reestruturação do Calipro (Centro Acadêmico da Engenharia de Produção).

E daí veio uma grande paixão, o Baja,  uma competição de veículos off-road, organizada pela SAE (Society of Automotive Engineerings), entre Instituições de Ensino Superior de Engenharia. O desafio do projeto era o desenvolvimento do carro, visando a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos em sala de aula. Um projeto que ela trabalhou por quatro anos e com a alegria de ter competido no Mundial de Baja nos Estados Unidos, conquistando o 8º lugar na categoria Geral, que foi disputado com 120 equipes.

Nesta entrevista para o LIDE FUTURO, Anna conta com detalhes os aprendizados de sua vida profissional:

LIDE FUTURO – Conte mais detalhes sobre o projeto Baja e os desafios enfrentados.

ANNA – Além da busca constante por resultados e performance, no Baja aprendi a empatia, o trabalho em equipe, o respeito pelo sonho de cada um e nossa responsabilidade pelo resultado em conjunto… Passamos muitos perrengues juntos. Infinitas noites sem dormir, derrotas, atrasos, choros, discussões, desânimos, algumas várias idas a hospitais, estresse… Mas ganhei muita resiliência, experiência, muitas alegrias, os melhores amigos e meus sócios! 

LIDE FUTURO – E depois do projeto Baja, que durou quatro anos, qual foi o seu próximo desafio?

ANNA – Mesmo recém-formada, eu já tinha alguma experiência e networking. Recebi uma proposta para vir trabalhar e morar em São Paulo, ser gerente de uma empresa de logística! Sem pensar muito, aceitei! Foi um desafio gigantesco! E com muito trabalho, barreiras, obstáculos, dedicação, resiliência, flexibilidade, desafios, sonhos e realizações fui promovida a Diretora de Operações. Trabalhei nessa empresa durante seis anos, até o final de 2017. E era hora de recomeçar! E assim eu recomecei, empreendendo e vivendo um novo sonho até hoje, que é a Quattro, nossa startup de tecnologia para logística e supply chain. 

LIDE FUTURO – Qual é o principal produto hoje da Quattro?

ANNA – Temos a Flowls como nosso principal produto, uma plataforma para transformação digital da cadeia de suprimentos. Integramos e automatizamos os fluxos logísticos, proporcionando um melhor planejamento, controle, previsibilidade e visibilidade para as operações de supply chain.

LIDE FUTURO – Como COO, como é o seu dia a dia na Quattro?

ANNA – O dia a dia é uma loucura, uma loucura boa! Numa startup a gente faz um pouquinho de tudo! [Risos] É zero glamour e muito suor, todo dia é dia, toda hora é hora. Eu brinco que, fazendo uma analogia com a faculdade, é como se toda semana fosse semana de prova, todo dia é de deadline de projeto. Muito trabalho e muito aprendizado. Mas o que eu mais faço e mais amo é a interface e o relacionamento com o cliente, desde a prospecção, venda até a implementação. Entender os processos e as dores de cada um para pensar em como conseguimos ajudá-los! Nós acreditamos muito que a logística tem que ser parte da estratégia das empresas e, entendendo as particularidades e necessidades de cada cliente, conseguimos trabalhar juntos para este objetivo.

LIDE FUTURO – Como você vê o setor de logística no Brasil? Quais os principais desafios que o Brasil enfrenta?

ANNA – Vejo um setor com muitas oportunidades! O Brasil é um país continental com uma malha logística extremamente complexa. Temos uma das maiores despesas de logística do mundo. É claro que muitos desses custos são decorrentes da falta de infraestrutura, problemas nas estradas, falta de integração multimodal etc. Grande parcela destes custos são ineficiências dos processos, desperdícios! Durante muito tempo a logística foi considerada um “mal necessário”, “apenas um centro de custos”. Melhorias de processos, automações, metodologias de gestão, filosofias e ferramentas como Lean, Six Sigma, TOC etc, foram muito difundidas e implementadas nos processos produtivos, mas muitas vezes esquecidas na logística.

LIDE FUTURO – Pode contar um exemplo prático de problema logístico na realidade das empresas?

ANNA – Sim, esses dias uma amiga me ligou impressionada, contando que havia feito uma troca de pontos de cartão de crédito por 12 pratos em uma grande loja de departamento. Como era uma transação do cartão, pela regra, ela precisou fazer um pedido por vez. O espanto dela foi que, numa bela tarde de quarentena, tocaram a campainha da casa dela. Era um entregador com um único prato, devidamente embalado e etiquetado. E, assim, foram mais 12 entregas diferentes no mesmo local, para o mesmo endereço! Seria cômico se não fosse trágico! Imagina o desperdício no pedido, no “picking”, no “packing”, no transporte efetivo, nos materiais… E este é apenas um exemplo do que ocorre diariamente em todos os elos, etapas e com todos os “players” dessa cadeia logística. 

LIDE FUTURO – Existe ineficiência de logística no comércio exterior?

ANNA – Sim, segundo um estudo recente da Receita Federal, as ações sob responsabilidade dos agentes privados: o importador ou seu preposto [despachante aduaneiro], o transportador internacional e o depositário representam mais da metade do tempo total despendido em todos os fluxos analisados na importação de um produto.  Os importadores têm potencial para reduzir em média mais de 40% do tempo total no desembaraço de uma mercadoria. Nessa linha, eu enxergo que a transformação digital da Logística é uma grande mina de ouro. Todos esses exemplos são desafios e grandes oportunidades para tornarmos a Logística do Brasil mais eficiente e competitiva.

LIDE FUTURO – Como a transformação digital pode auxiliar no aumento de eficiência de empresas e setores públicos?

ANNA – Fazendo um resumo, a cadeia de suprimentos é composta por três grandes fluxos: o fluxo de materiais, o fluxo financeiro e o fluxo de informações. Porém, esses três fluxos são muito desconectados e desintegrados. Por se tratar de diferentes intervenientes, diversas etapas, muitos processos e sistemas, as informações ficam fragmentadas e se perdem nas interfaces entre as operações. É como um grande quebra-cabeça com peças soltas e cheio de complexidade. A transformação digital vem para juntar todas essas peças que envolvem os processos, conectando os diferentes atores e sistemas e integrando todo o fluxo de informações para trazer mais planejamento, previsibilidade e visibilidade aos processos. Democratizar a gestão logística e auxiliar os usuários para a tomada de melhores decisões. É como um “gêmeo” virtual que replica os processos físicos no digital, permitindo reduzir desperdícios e ineficiências que resultam em grandes diminuições de custos e no aumento da qualidade percebida pelos clientes internos e externos, com a entrega de uma melhor experiência a todos os elos envolvidos na cadeia.

LIDE FUTURO – Como foi participar do LIDE FUTURO Debate sobre Transformação Digital na Logística?

ANNA – Foi sensacional! A começar pela organização do LIDE FUTURO. Transformação Digital na Logística é algo que eu sou apaixonada, porque envolve gente, processos, tecnologias e inovação. E como se não bastasse, nós conseguimos reunir junto a esse tema muito atual e pertinente, três dos profissionais e empresas que eu tanto admiro no Brasil: o Marcos Alves (Mercedes), o Nestor Felpi (Natura) e o Eduardo Nogueira (DHL). Eles conseguiram trazer, de uma forma bem leve e descontraída, os desafios, possibilidades e oportunidades do setor. Foi um show de conteúdo técnico de logística, de relações humanas, sustentabilidade e muito propósito.

LIDE FUTURO – Desde quando você faz parte do LIDE FUTURO?

ANNA – Faço parte do LIDE FUTURO desde 2013 e é inexplicável o quanto o grupo agrega para mim em termos de aprendizado, experiência, networking profissional e amizades.

LIDE FUTURO – Recentemente vocês foram aprovados no programa IA² MCTI, pode nos contar um pouco disso?

ANNA – Estamos super felizes e empolgados. O programa IA² MCTI é uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações em parceria com a Softex. O objetivo é apoiar pesquisa e desenvolvimento de Soluções com Inteligência Artificial. E nossa plataforma é uma dessas soluções selecionadas! Trabalhando com Logística 4.0, nós estamos sempre pesquisando, desenvolvendo e implementando as melhores tecnologias para resolver as dores do setor: inovação para necessidades reais! Trabalhamos muito com robôs (que monitoram em tempo real os status dos processos logísticos), já temos iniciativas com Blockchain, IoT, Machine Learning e agora Inteligência Artificial.

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