3 inovações que podem mudar radicalmente a indústria da moda

Vinicius Andrade, Fundador e CEO na basicamente. e filiado do LIDE FUTURO

Durante os últimos sete anos estou envolvido com a indústria têxtil, sempre olhando como a tecnologia pode ajudar no desenvolvimento dos negócios para a indústria, os varejistas e para as marcas (ou quem deseja iniciar uma).

De modo geral, no enfrentamento dessa crise atual, acho que todas as indústrias seriam sensatas ao refletir sobre como chegaram até aqui e o que precisa ser feito para realmente mudar e evoluir. Todas as iniciativas e esforços que vejo são para manter o modelo atual, ignorando a oportunidade de inovar de verdade. Empréstimos, por exemplo, fornecem alívio temporário, mas adiam a inevitável reinvenção que levará a tornarem-se indústrias mais saudáveis e mais resilientes (reinvenção que em muitos casos é feita por um novo player no mercado).

A moda é uma indústria global de US$ 3 trilhões e serve como modelo para definir uma nova estrutura industrial em um mundo que mudou para sempre. Aqui um pouco do porque acredito que o modelo de negócios da indústria da moda já está inadequado, para não dizer quebrado.

  • Demora de 6 a 12 meses para colocar um produto no mercado (embora haja algumas exceções);
  • É baseado em tecnologia muito antiga, desenvolvida principalmente nos anos 90 ou anteriores;
  • Sufoca em vez de possibilitar a inovação;
  • E seu impacto adverso neste planeta é impressionante.

Em resumo, essa é uma indústria que precisa de investimento em mudanças abrangentes e impactantes.

Não vejo mudanças significativas na indústria da moda desde que nasci, mais de 30 anos atrás, salvo duas grandes exceções: a chegada e fortalecimento do e-commerce e a logística “last mile”. Ela sobreviveu a dois grandes choques (11 de setembro e a crise financeira de 2008), mas teve muito tempo para se recuperar.

Enquanto isso, o mundo em que vivemos, a tecnologia que desenvolvemos e a interconexão de economias e sociedades não se parecem em nada com 30 anos atrás. Essa crise é uma evidência clara de que todos somos afetados (e infectados) pelas crises políticas, econômicas, sociais e de saúde e nos tornaremos cada vez mais no futuro. Mudanças sistêmicas reais não acontecerão se os investidores e as empresas continuarem focando apenas em inovação incremental. Precisamos reinventar os milhares de processos.

Acabar com o estoque

Se você realmente deseja mudar a indústria da moda, faça tudo sob demanda. Ele nada mais é que a uma fonte de fluxo de caixa futuro, mas agora praticamente não vale nada.

Agora imagine toda a indústria sob demanda:

  • Os fabricantes não teriam estoque inútil e de coleções antigas. Eles poderiam pausar suas fábricas em um instante, reiniciar em alguns dias e mudar sua fabricação para um mix de produtos mais atual rapidamente.
  • Os varejistas não tomariam mais decisões de compra seis meses antes de precisarem de estoque. Toda a mercadoria da loja seria reabastecida várias vezes por semana diretamente das fábricas, minimizando a exposição ruim ao estoque.
  • As marcas tornariam quase todos os elementos de seus negócios variáveis. Eles aumentariam ou diminuiriam a oferta de seus produtos dinamicamente, com base na demanda do mercado. Não haveria armazéns (os produtos são enviados para o cliente direto da fábrica), não haveria nenhuma liquidação por excesso de estoque, nem mesmo produtos esgotados ou dinheiro perdido em produtos não vendidos.
  • A moda seria muito mais sustentável. Estimativas conservadoras afirmam que 30% de todos os produtos fabricados a cada ano nunca são vendidos e acabam em aterros sanitários ou são incinerados. A sustentabilidade real e impactante começa com a produção da quantidade certa de um produto.

As empresas pareceriam diferentes — menos despesas gerais, mais automação. E o setor seria saudável, criando mais oportunidades para trabalhadores e investidores.

Uma cadeia transparente e distribuída

Produção sob demanda significa que um produto existe apenas quando é desejado. Produção distribuída significa que ela existe apenas onde é desejada, com isso ela permite o crescimento da cadeia de suprimentos diversificando o risco geográfico, fornecendo acesso em tempo real aos clientes em uma ampla gama de mercados, reduzindo o impacto no transporte, evitando tarifas e criando empregos locais na manufatura. Também possibilitaria medir o impacto ambiental de uma única peça de roupa e responsabilizar as empresas por reivindicações de sustentabilidade.

Uma rede de milhares de fábricas produzindo de forma distribuída seria inimaginável até cinco anos atrás. Mas agora, por exemplo, contratos de blockchain podem gerenciar de forma avançada a fabricação e a entrega de pedidos únicos, em qualquer lugar.

Um retorno a uma indústria impulsionada pela criação

Hoje, devido aos mínimos de fabricação e material e ao tempo do fluxo de caixa, estar errado é muito caro para uma marca. Mas em um mundo em que o produto é produzido sob demanda em tempo real, nada depende do volume. Um criador pode projetar, vender e fabricar uma peça de roupa com a mesma eficiência que 1.000, sem riscos. A indústria poderia recuperar algo essencial que se perdeu — sua alma.

A moda é uma indústria da arte, não da ciência. Muito se fala de investimentos para obter designs através de inteligência artifical ou análises baseadas em aprendizado de máquina para previsão de tendências mas pouco tenho visto em uma área que pode fazer a diferença: infraestrutura da cadeia de valor. Proponho que usemos a ciência para fortalecer a arte. Isto não é um sonho; é uma realidade hoje. E um belo exemplo é o que a Ruhnn está fazendo na China e muito do que sonhamos grande na Basicamente, com soluções para parte dessa cadeia, principalmente marcas e varejistas.

Há um velho ditado que diz: “Se você se encontrar dentro de um buraco, pare de cavar”. É hora de parar de cavar. A mudança é dolorosa, mas com coragem da indústria e capital dos investidores, podemos usar esse momento para construir uma indústria da moda mais estável e responsável. Podemos oferecer mais oportunidades para marcas, varejistas, fabricantes, designers, trabalhadores, acionistas e comunidades. Preservar uma indústria legada quebrada, irresponsável, em um momento em que podemos realmente mudar para melhor seria um desperdício de uma crise.

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